sábado, 11 de abril de 2026

A Casa das Sete Mulheres

 Janelas do Tempo: 

A Casa das Sete Mulheres, de Letícia Wierzchowski
, nos transporta para 1835, início da Revolução Farroupilha. Enquanto os homens da família de Bento Gonçalves partem para o combate, as mulheres — Ana Joaquina, Maria, Manuela, Rosário, Mariana, Caetana e Perpétua — são enviadas para a estância da Barra, em Camaquã. Ali, em busca de segurança, passam a conviver apenas com os parentes, escravizados e peões, transformando a estância no cenário de uma espera que duraria dez longos anos.

O livro é narrado através do diário de Manuela, sobrinha de Bento, que se apaixona perdidamente pelo revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi. Trata-se de um amor platônico correspondido na ficção, mas que o destino trataria de desviar. Garibaldi encontraria em Anita aquela que o acompanharia como o "herói de dois mundos", deixando para Manuela o peso de uma saudade que se tornaria eterna, marcando a transição da juventude para a maturidade sob a sombra da guerra.

Durante uma década, a casa torna-se um microcosmo de resistência e sofrimento. O tempo na estância é marcado apenas pelas notícias esparsas que chegam do front e pelas transformações internas de cada uma daquelas mulheres. Crianças saíram dali adolescentes e as adultas envelheceram testemunhando inúmeros casos de amores que foram sepultados nas coxilhas do Rio Grande, provando que a guerra fere profundamente mesmo aqueles que não empunham espadas.

Se nos livros de história aprendemos sobre as batalhas de Seival ou a Proclamação da República Rio-Grandense, em Letícia aprendemos sobre a "guerra da espera". O grande trunfo desta obra é dar voz ao silêncio das estâncias na imensidão do pampa. É um mergulho no avesso dos fatos, onde a historiografia cede espaço para a subjetividade de quem sentiu, na pele e no isolamento, os reflexos de um conflito que parecia não ter fim.

Na humanização do mito, Bento Gonçalves deixa de ser apenas o general para ser o marido e tio cuja ausência molda o destino das sete protagonistas. A "Casa" do título deixa de ser uma construção de pedra para se tornar um estado de espírito: a resiliência gaúcha sob uma ótica íntima e poética. É o Rio Grande do Sul sendo forjado não apenas pelo aço, mas pela força de quem ficou para trás com a missão de não deixar ruir o mundo da identidade gaúcha.


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