terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

É possível a “amizade social” de Francisco?

Algumas coisas que o papa Francisco faz e diz soam tão simples que as máquinas políticas (inclusive da própria Igreja Católica) colocam uma pulga atrás da orelha, especulando: “será que é isto mesmo que ele está querendo dizer?” Estão acostumados a duvidar das intenções de seus dirigentes porque foram doutrinados a “tentar ler nas entrelinhas”, ou descobrir “segundas intenções”. Este o motivo do papa publicar a encíclica Fratelli tutti (“Todos irmãos”), em 2020, inspirado no outro Francisco, o santo.


Demonstrava a vontade de propor à humanidade uma coexistência com base na fraternidade e na amizade social. Com tantos interesses em jogo, especialmente de poder e financeiro, Francisco é boicotado de dentro da própria Igreja (sem contar declarados inimigos conservadores na política, na economia e na mídia internacional). Muitas especulações, são exatamente feitas por quem não leu o documento, que é uma profunda reflexão e sublima com a “Oração ao Criador” e a “Oração cristã ecumênica”.

Deseja desacomodar cristãos políticos, que estão na economia, educação e na religião, para que se transformem em pessoas de boa vontade. Motivo da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) trazer a proposta para a realidade brasileira, com o tema – Fraternidade e amizade social – na Campanha da Fraternidade 2024. Conceito básico de “amizade social” é “expandir o coração para caber quem desconhecemos, que não faz parte do nosso círculo de amizade, mas que também precisa de um olhar amigo”.

Este olhar diferenciado “pode” superar conflitos culturais, econômicos e políticos que se manifestam em “guerras fraticidas”. O papa é um homem atento ao mundo globalizado e percebe que a política está se tornando cada vez mais frágil perante os poderes econômicos transnacionais. Questiona, com razão: “qual significado tem hoje palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade? Foram manipuladas e desfiguradas para utilizá-las como instrumento de domínio, como títulos vazios de conteúdo”.

A experiência brasileira recente demonstra a cultura do conflito por meio da polarização de políticas acirradas, especialmente por quem detém o poder. Francisco diz: “a política deixou de ser um debate saudável sobre projetos a longo prazo para o desenvolvimento de todos e o bem comum, limitando-se a receitas efêmeras de marketing cujo recurso mais eficaz está na destruição do outro”. Aponta como desafio construir um novo estilo de se fazer política, tendo presente um sonho quase utópico: o “amor social”.

É possível a “amizade social” de Francisco? “O núcleo do autêntico espírito da política” é o “amor preferencial pelos últimos”. Propõe às lideranças religiosas e políticas a cultura do diálogo, reconciliação e paz. Num tempo de deboches narcisistas, sublinha que a política é o mais alto grau da caridade: dar de comer a um desempregado pode ser, muitas vezes, descarga de consciência; assegurar direito ao trabalho, pela ação política, é autêntica caridade, que oferece a chance da própria pessoa alcançar a sua dignidade.

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