sexta-feira, 30 de outubro de 2026

O Brasil é a casa de todos nós

O Fio da Meada:

Passadas as eleições presidenciais, o momento exige a coragem de regenerar feridas profundas, conscientes de que as cicatrizes fazem parte da nossa história, mas não podem paralisar o futuro. Continuamos todos morando no mesmo país, sob o mesmo céu, dividindo os mesmos espaços urbanos e os desafios cotidianos do trabalho e da família. A divisão estéril não ajuda em nada a construção de uma sociedade mais justa; pelo contrário, apenas aprofunda fraturas que exigem agora o bálsamo urgente do diálogo e do respeito mútuo.

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"A vida continua e o Brasil que queremos habitar depende inteiramente das escolhas que fazemos no dia seguinte às urnas."

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Nesse cenário, cabe especialmente às pessoas mais experientes e amadurecidas da nossa sociedade — como tantas mães dedicadas e cidadãos conscientes — assumirem o nobre papel de ser o verdadeiro "algodão entre os cristais". Essa postura de acolhimento e moderação impede que os atritos cotidianos estilhacem ainda mais as nossas relações familiares, comunitárias e profissionais. Ser pontes de diálogo, e não muros de isolamento, é a exigência primordial para que a convivência democrática volte a respirar com serenidade.

No entanto, a reconciliação duradoura não se sustenta apenas na boa vontade individual; ela demanda estruturas e orientações sólidas que alcancem sindicatos, igrejas e entidades sociais. É preciso que essas organizações assumam a responsabilidade de orientar seus quadros por meio de uma formação política madura, focada na ética republicana e no bem comum. Educar para a cidadania é o antídoto mais eficaz contra a polarização cega e a intolerância que empobrecem o nosso debate público.

Entre essas instituições, a Igreja Católica possui um manancial inestimável que precisa ser ativado com vigor renovado através de escolas de formação para leigos. Fundamentadas na rica tradição da Doutrina Social da Igreja, essas iniciativas capacitam os cidadãos a atuarem na vida pública com discernimento, justiça e solidariedade. Formar lideranças leigas capazes de traduzir valores éticos em ações concretas é um investimento vital para a regeneração moral e social da nossa pátria.

Agradeço aos que mandaram mensagens dizendo que votariam no segundo turno em função do meu texto da semana passada. A vida continua e o Brasil que queremos habitar depende inteiramente das escolhas que fazemos no dia seguinte às urnas. O Brasil é a casa comum de todos nós, sem exclusões partidárias ou ideológicas. Vamos nos encontrar nos lares, na vizinhança, no trabalho, nas escolas, nas igrejas, no futebol… Enfim, conviver, com maturidade, diálogo e esperança no amanhã, é a única forma digna de honrar o presente e garantir um futuro de paz para as próximas gerações.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/_a5dMiNuZLY)

terça-feira, 27 de outubro de 2026

Eu me arrependo

Quartas com gosto de poesia: 

Envelhecer é olhar o passado

Como um caminho que não se pode mais corrigir.

Uma longa jornada em que o arrependimento

É apenas um elemento para tentar ser feliz.

Sem deformar os sentidos, torna-se a maneira

Mais eficaz de refinar os próprios sentimentos.


Vive-se como se o tempo fosse suficiente

Para se tornar uma eternidade.

Perceber a finitude não transforma o gosto

Da saudade em néctar ou bom vinho.

Aprende-se que o presente é rico

Em presságios do que será o futuro.



Eu me arrependo:

Pelas vezes que não te beijei,

Pelas vezes que não te amassei,

Pelas vezes que não correspondi ao teu sorriso.

Especialmente,

Por não ter repetido até cansar

O quanto te amava,

Quando o tempo ainda permitia

Reconhecer o instante presente

Como o nosso único e definitivo abrigo…


(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/cYEFdp-INj8)

sábado, 24 de outubro de 2026

Os caminhos por onde andam as estrelas

Crônica Poética:

A primeira e única criança que veio das estrelas, guardada na memória e no afeto, foi o doce e encantador Pequeno Príncipe. Sempre que uma nesga de céu aberto se descortinava no horizonte, o olhar quedava-se maravilhado, imaginando os caminhos invisíveis e os roteiros secretos capazes de guiar tal travessia. Nessa contemplação de infância, o firmamento não era apenas um teto de astros distantes, mas a pátria original de onde brotam os seres mais puros, aqueles que chegam trazendo a lição silenciosa de que o essencial permanece invisível aos olhos e só pode ser alcançado pelo coração.

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Velaremos por aqueles que ficaram, transformando a ausência em claridade e a Eternidade em um eterno recomeço…

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No curso dos dias, a vida convida a tatear essa origem estelar através de gestos simples que suspendem o tempo. É o instante em que se constrói um kit de afeto materializado em um quadro: uma placa de massa de modelagem que acolhe o espaço preciso para duas imagens e marcas indeléveis. O avô decide registrar a própria mão e, bem no centro, entrelaçá-la à mão pequena do neto, eternizando o toque. Ao lado, emolduram-se duas boas memórias de atividades compartilhadas, a confirmar que criar lembranças é a arte mais nobre de ancorar o amor no cotidiano.

Fica, assim, o duplo presente: a posse terna de uma recordação viva do neto e a entrega de um legado de carinho que atravessará os anos. Cada ranhura na massa moldada guarda o calor de uma tarde, o riso solto e a cumplicidade de gerações que se reconhecem. Mais do que simples matéria endurecida pelo tempo, aquele quadro transforma-se em um pequeno altar doméstico, onde o passado e o porvir se dão as mãos, provando que os laços verdadeiros não se desfazem com a pressa dos ponteiros, mas se fortalecem na doçura da partilha.

Se um dia as crianças chegam ao mundo como mensageiras vindas das estrelas, ao partirmos um dia seguindo o rumo inexorável da Eternidade, talvez seja justamente a nossa vez de retornar e nos transformarmos também em estrelas. Restarão, então, as lembranças cultivadas com esmero — como as mãos unidas no quadro e a saudade mansa que brilha no alto. Lá do alto do céu, guiados pela mesma luz que outrora inspirou o principezinho, velaremos por aqueles que ficaram, transformando a ausência em claridade e a Eternidade em um eterno recomeço…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/wrjxkhx8exM)

sexta-feira, 23 de outubro de 2026

As Luzes de Setembro, de Carlos Ruiz Zafón

Janelas do Tempo

Publicado em 1994, As Luzes de Setembro encerra a chamada "Trilogia da Névoa" de Carlos Ruiz Zafón, romance que transporta o leitor para a atmosfera enigmática da costa bretã no final dos anos 1930. A narrativa acompanha a família Saunders — a mãe, Simone, e os filhos, Irene e Dorian —, que recomeça a vida em uma vila litorânea após aceitar o convite para trabalhar na mansão de um excêntrico e recluso fabricante de autômatos. No entanto, o idílio costeiro logo se dissolve diante de segredos sombrios do passado que começam a vir à tona, transformando a pacata localidade em um cenário de suspense e perigo iminente.

O ponto de inflexão da trama ocorre quando os jovens Irene e Dorian se veem envolvidos com o misterioso faroleiro e descobrem a existência de Lazarus, o dono da mansão, cuja trajetória está tragicamente entrelaçada com a de um ser enigmático e sinistro conhecido como o Cain. Essa entidade, dotada de traços sobrenaturais e de uma crueldade calculista, manipula as sombras e os desejos mais profundos dos moradores em troca de pactos sombrios. A partir daí, o romance acelera o ritmo em uma sucessão de revelações que testam a coragem dos protagonistas, explorando temas caros ao autor, como a inocência perdida e o peso das escolhas morais.

Sob o aspecto estilístico, Zafón demonstra sua singular maestria na construção de atmosferas góticas e na fusão entre o realismo histórico e o insólito. A ambientação marinha, marcada por nevoeiros densos, marés violentas e o som constante das ondas, funciona como uma extensão psicológica dos personagens, intensificando a sensação de isolamento e claustrofobia. O uso de autômatos e engenharias mecânicas como elementos centrais da narrativa não apenas homenageia a tradição do romance fantástico, mas também serve como metáfora para a fragilidade da condição humana diante do destino e da obsessão.

No plano temático, a obra aprofunda a transição melancólica entre a infância e a maturidade, retratando o momento em que a ingenuidade cede lugar à dura compreensão das complexidades do mal. Os laços familiares e a força do primeiro amor surgem como as únicas trincheiras capazes de resistir à corrupção moral personificada pelo antagonista, conferindo um tom humanista à narrativa de suspense. Zafón reafirma, assim, a capacidade da literatura juvenil e fantástica de dialogar com questões existenciais profundas, oferecendo uma leitura que cativa tanto pelo mistério quanto pela densidade lírica de sua prosa.

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"A obra aprofunda a transição melancólica entre a infância e a maturidade, retratando o momento em que a ingenuidade cede lugar à dura compreensão das complexidades do mal."

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As Luzes de Setembro consolida-se como uma leitura essencial para compreender a gênese do universo literário do autor espanhol, antecipando traços que viriam a consagrar obras-primas posteriores. Embora dialogue diretamente com os cânones do romance gótico tradicional, a narrativa mantém uma voz própria ao equilibrar o lirismo nostálgico com o ritmo ágil do suspense moderno. Trata-se de um livro que cumpre com excelência a proposta de encantar e inquietar o leitor, deixando uma marca duradoura na memória afetiva daqueles que cruzam os caminhos sombrios da costa da Bretanha.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/dmqlmjbXcak)

Pelo Bem do Brasil

O Fio da Meada:

​O cansaço e a desilusão com os rumos da política levam muitos brasileiros a cogitar pela abstenção no segundo turno das eleições, marcado para o dia 25 de outubro, acreditando que a multa por não comparecer é irrisória e que o voto perdeu o sentido. No entanto, ficar em casa é um erro que apenas abre espaço para que outros decidam o futuro de todos nós, enfraquecendo a voz coletiva e a representatividade social do cidadão.

​A urna não representa apenas uma obrigação burocrática, mas sim a ferramenta mais poderosa de expressão cívica que possuímos para transformar a insatisfação em mudança real. Abster-se é abdicar voluntariamente do direito de cobrar, fiscalizar e exigir melhorias efetivas dos governantes eleitos. Ausente na votação, perde-se um direito básico: cobrar do eleito uma estrutura que mantenha com dignidade, especialmente, aqueles que têm mais dificuldades de sobreviver.

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"Um país justo não é do Lula ou do Bolsonaro, mas de todos nós que ainda acreditamos em dignidade e respeito, independente da posição partidária de cada um."

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​Um chamado especial se dirige aos idosos que tanto trabalharam e contribuíram na trajetória deste país, pedindo que tenham, agora, sabedoria e deem exemplo de cidadania. Seu voto ecoa uma história de vida respeitável, servindo de farol para as novas gerações que observam o cenário nacional. A desobrigação do voto facultativo não lhes dá o direito de se omitirem. Ainda mais, em tempos de polarização, espera-se que deem o exemplo como agregadores e não fomentem divisões nefastas.

​Votar não significa apenas escolher preferências partidárias isoladas, mas pensar no bem comum e na qualidade de vida de todos os cidadãos. Cada voto depositado atua como um tijolo indispensável na construção do país que se deseja legar aos nossos filhos e netos. Votar não é uma questão de certo ou errado, desde que seja feito com convicção. No entanto, omitir-se é um ato de covardia de quem abre mão da própria cidadania.

​Pelo bem do Brasil (e de cada um de nós brasileiros), neste domingo, dia 25, faça valer a sua voz e supere todo e qualquer desalento, toda e qualquer decepção que tente desestimular a sua participação democrática. Mesmo que não faça parte das facções que se instalaram no país, vá às urnas pensando na nossa terra, na nossa gente e na esperança de dias melhores, de que nem tudo está perdido. Lembre que um país justo não é do Lula ou do Bolsonaro, mas de todos nós que ainda acreditamos em dignidade e respeito, independente da posição partidária de cada um.

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/5Dend_91y44)

quarta-feira, 21 de outubro de 2026

As vozes que não ouço mais

Quartas com gosto de poesia:

Tenho medo do silêncio 

Que habita as minhas recordações. 

É um poço profundo onde mergulham

As vozes que me abandonaram.

Eco de um passado

Que teima em roubar presenças

Para transformar afetos em saudades.



Além das vozes, desaparecem 

Risos e sorrisos que abençoaram meu dia a dia.

Na vida plena em que o futuro e suas ausências 

Parecia distante e inatingível. 

Um abismo em que 

o tempo, aos poucos traga as memórias.


Resisto em deixar que rostos esvaneçam,

Corpos se tornem etéreos,

Vozes e risos atormentem meus sonhos

Com o despertar dolorido

 E uma lágrima sentida.

A certeza  de que nunca mais estarão 

Ao alcance dos meus abraços…


(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/4iz1AMmOOMk)

sábado, 17 de outubro de 2026

No fundo da geladeira

Crônica Poética:

Achei engraçada a recomendação de que não se guardassem coisas perecíveis na porta da geladeira, como frios e manteiga, por exemplo. O fato de se abrir constantemente a porta faz com que a temperatura oscile. O melhor é colocar o item numa prateleira interna, bem no fundo. A conversa surgiu quando se falava a respeito da conservação da manteiga em outro lugar durante o inverno.

Não tenho dotes culinários e, morando sozinho, preciso aprender com familiares e amigos a gerenciar a casa. O bom é que se ouve de tudo. O melhor é não discutir: se a dica for boa, basta experimentar. É o que tenho feito. Sempre briguei com a manteiga que acaba ficando gelada demais — ou, como diziam os antigos, “empedrada”. Havendo um armário em lugar abrigado, de temperatura amena, é um fato: a conservação acontece sem que seja preciso uma britadeira para separar um pouquinho para o pão.

Fiquei pensando que isso se assemelha aos nossos sentimentos, aos nossos amores e às nossas dores. Sempre que ficam expostos, correm os riscos da instabilidade. Preservá-los no “fundo da geladeira”, ou “num armário climatizado”, pode ser o melhor jeito de protegê-los das intempéries passageiras.

As mesmas reações que o tempo nos torna capazes de contemplar com a serenidade de quem já não tem pressa. Não há mal algum em resguardar emoções em um ambiente abrigado, deixando-as emergir somente em momentos que valham a pena. A exposição desnecessária de sentimentos é caminho para ferir a outros e nos machucarmos com reações intempestivas — daquelas em que o arrependimento tarda, sempre deixando o ranço do que se pode até perdoar, mas não se consegue esquecer…

(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/mxySk46Vvj0)