sábado, 28 de fevereiro de 2026

Minha história, de Michelle Obama

Janelas do tempo:

Com Michelle Obama, entramos num registro de confidência que raramente encontramos em figuras públicas dessa envergadura. O que cativa no "Minha História" não é a cronologia dos fatos políticos, mas
a textura da vida quotidiana que ela consegue resgatar. É um livro sobre as camadas que nos compõem. 

Descreve a infância no South Side de Chicago não como um ponto de partida para uma ascensão, mas como o lugar onde seu caráter foi temperado - o som do piano da tia no andar de baixo, o orgulho de um pai que, mesmo doente, nunca faltava ao trabalho, a presença firme da mãe. Há uma poesia sutil na forma como fala dessas raízes, mostrando que, por mais longe que vamos, o chão que pisamos primeiro nunca nos sai dos pés.

Quando o livro chega aos anos da Casa Branca, o que impressiona é a sensação de "estranheza" que ela mantém. Descreve as janelas que não podem ser abertas, a perda da espontaneidade, o peso de ser um símbolo. É um olhar muito humano sobre o isolamento que o poder impõe. Não fala apenas como primeira-dama; fala como mulher, mãe e filha que tenta não se perder no meio de um turbilhão de expectativas alheias.

A pergunta que atravessa toda a obra - "Será que sou suficientemente boa?" - é o grande fio condutor que nos une a ela como leitores. É uma dúvida universal. Ao partilhá-la, deixa de ser uma figura distante num pedestal e torna-se uma companheira de viagem. Faz com que se reflita: o que nos define quando as luzes se apagam e os títulos desaparecem? O que resta de nós quando - por afastamento de função, aposentadoria, doença, velhice - voltamos ao silêncio do nosso próprio nome?

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“O que resta de nós quando

- por afastamento de função, aposentadoria, doença, velhice -

Voltamos ao silêncio do nosso próprio nome?”

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(Revisão e pesquisa: IA Gemini. Imagens: Internet.
Áudio e vídeo em https://youtu.be/Bzegk3GOuqk)

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Chinelos, cultura e o tabi

O fio da meada:

Este verão atípico, com algumas manhãs de um frescor inesperado, levou-me a buscar algo mais que o habitual chinelo de dedo. Seguindo o sábio conselho de minhas "conselheiras familiares", rendi-me à
babuche. Para quem não associa o nome ao objeto, é aquela sandália com uma tira traseira versátil: ora firma o pé com segurança, ora repousa sobre o peito do calçado, transformando-o em um prático chinelo.

Ao calçá-la, fui transportado no tempo. Lembrei-me de como, antigamente, adaptávamos borrachas na parte de trás dos calçados das crianças, que ainda não dominavam o equilíbrio dos chinelos de dedo. Era um cuidado instintivo para evitar deslizes e quedas. Hoje, percebo que esse ciclo se fecha: a preocupação com a segurança, que antes focava nos pequenos, agora se estende a nós, idosos. Garantir a estabilidade não é apenas uma questão de conforto, é um ato de preservação.

A reflexão ganhou novos contornos enquanto eu acompanhava a cobertura do Globo de Ouro. Entre os flashes e premiações, vi a celebração do talento brasileiro: a vitória de Wagner Moura como melhor ator de drama por "O Agente Secreto". Mas, para além do troféu, o que me fisgou o olhar foram os sapatos do artista. O design, com o dedão em um compartimento separado, remeteu-me imediatamente à série japonesa "Rikuoh", que narra a saga de uma fábrica tradicional tentando sobreviver ao criar tênis de maratona baseados na anatomia humana.

Ali, descobri a existência das meias tabi. Tradicionais no Japão, elas separam o polegar dos demais dedos, permitindo o uso de calçados de tira com o pé aquecido. Pensei comigo: "Se eu soubesse disso antes, teria mantido meus chinelos de dedo, mesmo nos dias frios!".

O cinema e os grandes eventos, como o Globo de Ouro, são mais que entretenimento; são espelhos culturais. Eles revelam que há beleza e funcionalidade em tradições que, por vezes, ignoramos. Ao ver um brasileiro brilhando no topo do mundo, sinto que nossa persistente "síndrome de vira-lata" finalmente dá lugar ao orgulho e ao reconhecimento.

O Japão ensina, por meio de um simples calçado ou de uma meia centenária, lições de educação, respeito e design voltado ao bem-estar. No fim das contas, seja com uma babuche moderna ou uma milenar meia tabi, o que se busca é o mesmo: a firmeza necessária para caminhar com dignidade e segurança, valorizando o que é nosso e aprendendo com o que o mundo tem a oferecer…

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"Pensei comigo: "Se eu soubesse disso antes, teria mantido meus chinelos de dedo, mesmo nos dias frios!"."

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(Revisão: IA Gemini. Imagem: Canva. Áudio e vídeo em https://youtu.be/aPi3N1i4_GA)

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Sou: Rebento

 Crônica poética

Sou o fruto gerado no teu ventre. Fomos cúmplices no tempo de silêncios em que éramos apenas nós dois. Compartilhei tuas dúvidas, entendi tuas angústias. Quis secar a lágrima que selou a notícia da minha chegada. Agora, finalmente, habito os teus braços.

Sou o desejo de tornar perene o sentimento que nos uniu
, o ser que complementa a tua humanidade. Sou fruto da tua vontade e do teu amor. Quando as primeiras imagens revelaram meu corpo, eu ainda não mensurava o carinho que transbordava do teu olhar.

Ao ouvir-te agradecer a Deus pelo rebento que germinava, sentia o doce afago que me envolvia no teu seio. Meu leito será o aconchego do teu corpo, onde caberão os sonhos… e as conquistas… e as decepções… O tempo da espera e, também, o tempo da partida!

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"Meu leito será o aconchego do teu corpo, onde caberão os sonhos… e as conquistas… e as decepções…"

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(Revisão: IA Gemini. Imagem: Canva. Áudio e vídeo em https://youtu.be/QHWD-u0RDnM)



sábado, 21 de fevereiro de 2026

Eternidade por um Fio, de Ken Follet

Janelas do Tempo

Chegamos ao capítulo final da trilogia O Século, de Ken Follett. Se iniciamos a jornada com a queda das monarquias e atravessamos o rigoroso inverno da 2ª Guerra, em "Eternidade por um Fio" abrimos a janela para um mundo dividido por um muro de concreto e uma cortina de ferro.

Acompanhamos agora a terceira geração das famílias que o leitor aprendeu a conhecer. O palco principal é a Guerra Fria. Estamos nos anos 60, em meio à luta pelos direitos civis nos Estados Unidos (ao lado de Martin Luther King), a crise dos mísseis em Cuba e o surgimento do Muro de Berlim. É um período em que a humanidade viveu, literalmente, com a vida por um fio, sob a ameaça constante de um conflito nuclear.

O que toca profundamente nesta conclusão é a percepção de que a história não é feita apenas de grandes tratados, mas de pequenos atos de coragem. Vemos jovens em Berlim Oriental arriscando tudo por um sopro de liberdade, enquanto, no Ocidente, outros jovens lutam para romper as barreiras do preconceito.

Ken Follett mostra que a "Eternidade" do título é essa busca incessante do ser humano por conexão e justiça, algo que parece sempre escapar por um fio, mas que nunca se rompe totalmente. É um livro sobre a queda dos muros — físicos e mentais. É um exercício de memória afetiva: lembrar de onde estávamos quando o Muro de Berlim caiu ou quando os primeiros acordes do rock mudaram o comportamento social.

Ao fechar este terceiro livro, é impossível não refletir que a história é um ciclo de desafios. No entanto, a dignidade humana e o amor familiar são o fio de ouro que mantêm o tecido da vida unido, não importa quão forte sejam as tempestades políticas.

(Revisão e pesquisa: IA Gemini. Imagens: Canva. Áudio e vídeo em https://youtu.be/FLdFLUFKhks)

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

As Jovitas, as Saturnas e a história viva…

O fio da meada:

Meus avós tinham nomes daqueles bem antigos, incomuns hoje em dia. Com exceção do vô Eduardo, por parte de pai, os outros eram Claudestino (que acabou dando nome ao meu irmão: “José Claudestino”), Saturna e Jovita. Jovita, em particular, era o nome de minha avó materna. Todos já falecidos, são nomes que guardam a memória de meus antepassados.

Recentemente, em uma reportagem do programa Globo Rural na Serra do Espinhaço, em Minas Gerais, outra Jovita apareceu. O programa inteiro era uma poesia em forma de jornalismo. Mostrou como a formação daquele acidente geográfico permite que a população rural migre sazonalmente para o sopé da montanha, onde trabalham na colheita de uma flor singular: a sempre-viva.

O que chamou a atenção ao percorrer o "interiorzão" do Brasil através desta reportagem foi a semelhança da população rural em termos de nomenclatura, costumes, tradições, crenças e convivência. Atividades como os mutirões para a colheita ou para o abate de um porco conectam a Serra do Espinhaço ao resto do Brasil profundo.

Na época da colheita, essas pessoas moram nas "lapas", sob paredões de pedra, fazendo da chapada um "quintal de montanha". Nos moradores que vivem, hoje, esta realidade - assim como em minhas lembranças do convívio com minhas avós no interior de Canguçu, a serenidade tem a marca do tempo e do sofrimento inscrita nos próprios corpos.

O que verdadeiramente conecta o interior do Brasil é o seu povo, que constrói uma história que não está nos livros, mas em memórias invocadas nas lembranças. Percorrendo as chapadas, o sertão, os cerros de Canguçu ou um quintal da montanha onde o olhar se perde no horizonte. É a ancestralidade viva, forjada no trabalho e na simplicidade, que ressoa no nome de uma flor colhida sob a rocha e de todas as “Jovitas”, “Saturnas” que escrevem a autêntica história viva…

(Revisão: IA Gemini. Imagem: Canva. Este e outros textos em manoeljesus.blogspot.com. Áudio e vídeo em https://youtu.be/wEWAX8tphQY)


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Sou: Migrante

Crônica poética

Um dia fui parido pela terra. Em algum momento, atravessei fronteiras; em outro, deixei no horizonte meu lugar de origem. Onde nasci, já não me dá o direito de sobreviver. Partir era apostar num resquício de esperança, sempre com a vontade de um dia voltar. 

Fui europeu marcado a ferro e fogo pelas chacinas mundiais; judeus na diáspora que me levou pelo mundo; negro ao deixar a mãe África, agoniado nos porões dos navios negreiros.

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"O desejo da solidariedade sem preço, sem cor, sem gênero. Livre de preconceitos, apenas o sonho de pertencer à comunidade universal do ser humano!"

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Refugiado das guerras fratricidas que não provoquei. Criança, mulher e velho chicoteado pela fome. Vítima de regimes políticos que falam em defender-me, no entanto, descaradamente, cerram as portas da fraternidade. 

Como Jesus, no Egito, virei refugiado, à procura de abrigo e proteção. O desejo da solidariedade sem preço, sem cor, sem gênero. Livre de preconceitos, apenas o sonho de pertencer à comunidade universal do ser humano!

sábado, 14 de fevereiro de 2026

O Inverno que Mudou a História, de Ken Follet

 Janelas do Tempo

(Marcando histórias e memórias)

Se no primeiro livro vimos a "queda dos gigantes" das velhas monarquias na 1ª Guerra, em Inverno no Mundo, o foco muda para os filhos daqueles personagens. O cenário começa na Berlim de 1933, onde a democracia respira por aparelhos. Acompanhamos a família alemã von Ulrich tentando resistir à sombra do nazismo, enquanto, do outro lado do oceano, os americanos e ingleses despertam lentamente para o perigo que se aproxima. 

O livro passa pela Guerra Civil Espanhola, o ataque a Pearl Harbor e o desenvolvimento da bomba atômica. Um "inverno" metafórico: tempo de frio, medo e escuridão sobre a humanidade.

O que mais fascina nesta obra não é apenas o rigor histórico de Follett, mas a forma como humaniza os grandes eventos. Para o público que valoriza as relações familiares e a memória, o livro toca em um ponto sensível: como as escolhas dos pais ecoam nos filhos. Vemos jovens que precisam decidir entre a ideologia e a ética, entre o silêncio covarde e a resistência perigosa. 

É um livro sobre a perda da inocência. Se o primeiro volume era sobre a luta por direitos e espaço, este segundo é sobre a luta pela sobrevivência da própria dignidade humana. Para quem gosta de uma boa narrativa que faz viajar no tempo, é um convite a refletir sobre como as "nevascas" da política podem congelar, mas nunca destruir totalmente, o calor dos afetos humanos.

(Revisão, pesquisa e imagens: IA Gemini. Formatação: Canva. Este e outros textos em manoeljesus.blogspot.com. Áudio e vídeo em https://youtu.be/BApuKDjnsB0)