O Fio da Meada:
À medida que o 4 de outubro se aproxima, a disputa eleitoral opera sob uma atmosfera de espetáculo e delírio. Assim como no clássico samba em que a fantasia do Carnaval tem prazo exato para terminar na Quarta-feira de Cinzas, o transe coletivo das campanhas possui data de validade. Vende-se a ilusão messiânica de que a vitória de um lado trará a redenção absoluta, enquanto a do outro representará a ruína irreversível. Essa narrativa altamente inflamável esconde uma verdade muito mais dura: na segunda-feira, 5 de outubro, as luzes se apagam, o palanque é desmontado e a realidade se impõe com a sua frieza habitual.
Quando a “festa cívica” termina e o eleitor sofre o inevitável choque de realidade, a cidade acorda exatamente onde parou. O ônibus atrasado, a fila nas unidades de saúde, o buraco na via pública e o custo de vida não possuem afiliação ideológica, tampouco se comovem com jingles ou discursos apaixonados em praça pública. Os problemas estruturais que afetam o cotidiano do cidadão permanecem imunes à gritaria das redes sociais, esperando, implacáveis, que a conta da segunda-feira seja paga.
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"Despir o voto de sua carga quase mística e passional é o primeiro passo para o amadurecimento democrático."
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Tratar o processo eleitoral como uma cruzada do bem contra o mal, ou como uma extensão do fanatismo cego, serve apenas para ofuscar a natureza pragmática do pleito. O ato de votar não consiste em coroar um salvador para os males da nação, mas simplesmente em assinar um contrato de prestação de serviços. Trata-se da escolha funcional de um gestor que terá a obrigação de administrar o orçamento e garantir a execução de políticas públicas essenciais.
Despir o voto de sua carga quase mística e passional é o primeiro passo para o amadurecimento democrático. Quando o eleitor compreende que a eleição é a contratação de um funcionário público, e não um ato de devoção, a relação de forças se inverte. Afinal, a cidadania não se esgota no instante em que a urna eletrônica emite o seu sinal sonoro. Ela se materializa de fato no dia seguinte, na vigilância constante de quem se recusa a atuar como mera plateia para exigir que o trabalho comece justamente quando a ilusão acaba.
(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/GLF2-Kj9tG4)


