Janelas do tempo:
Com Michelle Obama, entramos num registro de confidência que raramente encontramos em figuras públicas dessa envergadura. O que cativa no "Minha História" não é a cronologia dos fatos políticos, mas a textura da vida quotidiana que ela consegue resgatar. É um livro sobre as camadas que nos compõem.
Descreve a infância no South Side de Chicago não como um ponto de partida para uma ascensão, mas como o lugar onde seu caráter foi temperado - o som do piano da tia no andar de baixo, o orgulho de um pai que, mesmo doente, nunca faltava ao trabalho, a presença firme da mãe. Há uma poesia sutil na forma como fala dessas raízes, mostrando que, por mais longe que vamos, o chão que pisamos primeiro nunca nos sai dos pés.
Quando o livro chega aos anos da Casa Branca, o que impressiona é a sensação de "estranheza" que ela mantém. Descreve as janelas que não podem ser abertas, a perda da espontaneidade, o peso de ser um símbolo. É um olhar muito humano sobre o isolamento que o poder impõe. Não fala apenas como primeira-dama; fala como mulher, mãe e filha que tenta não se perder no meio de um turbilhão de expectativas alheias.
A pergunta que atravessa toda a obra - "Será que sou suficientemente boa?" - é o grande fio condutor que nos une a ela como leitores. É uma dúvida universal. Ao partilhá-la, deixa de ser uma figura distante num pedestal e torna-se uma companheira de viagem. Faz com que se reflita: o que nos define quando as luzes se apagam e os títulos desaparecem? O que resta de nós quando - por afastamento de função, aposentadoria, doença, velhice - voltamos ao silêncio do nosso próprio nome?
*************
“O que resta de nós quando
- por afastamento de função, aposentadoria, doença, velhice -
Voltamos ao silêncio do nosso próprio nome?”
*************





