sexta-feira, 4 de abril de 2025

As nuvens que vão passando…

Não muda.

Pouco importa o que os outros te digam.

Almejas viver livre, ao menos em espírito.

Queres um lugar ao sol durante o dia

E onde contemplar a lua e as estrelas à noite.

Quando disserem que não atendes expectativas,

Entrega teu olhar com um sorriso zombeteiro

E te dá o direito de andar por uma rua qualquer,

Sem escolhas, sem rumo.


Enterra as mãos nos bolsos,

E quando ergueres os olhos,

Chutando uma pedra na calçada,

Sentirás o doce sabor de não fazer nada.

Quando implicarem contigo,

Dizendo que és um sonhador,

Vivendo no mundo da lua,

Não perde tempo tentando explicar.

Ser sonhador e viver livre é o privilégio dado

Àqueles que não abrem mão de seus sonhos.

 

As lembranças guardadas com carinho

Duram por toda uma vida.

E a maior prova de amor é estar em silêncio

Diante da dor de quem se ama,

Com os braços e o peito prontos

Para drenar amarguras e dissabores.

Não te preocupa se queres deitar na grama

E somente ver as nuvens que vão passando.

Ignorar o tempo não é abrir mão de vivências.

É acreditar que um instante

Pode conter sementes de Eternidade…


terça-feira, 1 de abril de 2025

Orgulho de ser brasileiro

Estou atrasado em comentar o filme “Ainda estou aqui”, indicado como melhor filme, melhor filme estrangeiro e Fernanda Torres como a melhor atriz, no Oscar da Academia de Hollywood. Eram grandes as possibilidades. O cinema brasileiro nunca esteve tão em destaque com um filme/denúncia sobre um momento ainda tão mal contado da história do nosso país. A Academia agraciou a produção como melhor filme estrangeiro. O primeiro filme a alcançar tal reconhecimento na maior premiação internacional.

A indicação mobilizou parcela dos brasileiros como se fosse uma partida de futebol em jogo de final da copa do Mundo. Para uma população mergulhada na indiferença, diante desta dicotomia besta que se instalou no país, foi uma lufada de bons ares. Os integrantes da Academia reconheceram que o Brasil deixou sua marca ao impulsionar a atenção dada pelas redes sociais. Jornalistas viraram tietes e contam que estavam trabalhando e ouviam pessoas de outros países gritarem que estavam torcendo pelo Brasil.

Poucas vezes se viu tanto entusiasmo como quando atuavam Pelé, no futebol, e Ayrton Senna, correndo na Fórmula 1, por exemplo. Fernanda Torres brincou que faltava virar fantasia de Carnaval ou boneco nos blocos de Olinda e Recife. Não falta mais. Pelo Carnaval do Brasil, a presença de bonecos e de máscaras da personagem emblemática. Na pele de Eunice Paiva, esposa do ex-deputado Rubens Paiva (vivido por Selton Mello), desaparecido no regime militar, marcada pela força e de nunca desistir. 

Adaptando o livro do filho, Marcelo Rubens Paiva, Walter Salles colocou em cena duas das maiores atrizes das artes cênicas: a própria Fernanda Torres e sua mãe, Fernanda Montenegro. Esta última a precursora, pois também foi responsável por outra indicação ao Oscar com o filme Central do Brasil. Em seguida também chega ao streaming, passando diretamente em nossas casas. Mas, quem puder, sugiro que vá ao cinema assistir. A sala grande e a telona ainda tem um charme especial para quem gosta da sétima arte…

Somos brasileiros e são estes momentos que não nos deixam desistir. Quem foi ao cinema ficou impactado pela protagonista vivida por Fernanda Torres. A mulher que, mais do que não desistir, procura razão para que a família continue vivendo e não abdicar dos seus direitos. Luta com garras e dentes para saber o que efetivamente aconteceu com seu marido. O que continua sendo um “mistério” até hoje. Quem já viveu um pouco mais sabe que nossos governantes ainda nos devem explicações para muitos momentos que ficaram nebulosos na nossa história…

domingo, 30 de março de 2025

Simplesmente assim: Outonar

 

Os ventos dobram a esquina do tempo.

Apresentam-se desnudando o verão,

Açoitando os braços,

Marcando os rostos e

Os olhos congestionados lacrimejam.

Seu murmúrio despoja as árvores,

Enquanto o primeiro sereno se dissolve ao sol

E o outono cinzela o dia com tons que aconchegam.

 

Sem a exuberância da primavera,

Transtornam o passar das horas, lentamente,

Fazendo a noite aconchegar-se mais cedo

E a manhã espreguiçar-se mais tarde.

Quando outona, fecham-se janelas e cortinas

No desejo de que a casa mantenha o calor humano.

Crepitando ao aquecer as mãos,

Enquanto a lenha estala no fogo,

O aconchego que faz bem ao corpo e ao coração…


sábado, 29 de março de 2025

O Profeta, de Gibran Khalil Gibran

Quando converso com alunos ou em palestras, cito quatro livros necessários de serem lidos repetidamente ao longo da vida: o Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry; Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach; o Menino do Dedo Verde, de Maurice Druon; e o Profeta, de Gibran Khalil Gibran. São obras que inspiram “humanidade”, a capacidade de nos sensibilizarmos diante da existência do outro.

Gibran construiu uma obra atemporal que consiste em uma série de ensaios poéticos e reflexões sobre diversos aspectos da vida e da experiência humana. A história se passa na cidade de Orphalese, onde o profeta Almustafa, após doze anos de exílio, está prestes a embarcar em um navio para retornar à terra natal.

Antes de partir, os habitantes da cidade se aproximam, pedindo que compartilhe sua sabedoria e ofereça seus ensinamentos sobre temas universais e profundos. Ao longo do livro, o profeta aborda tópicos como amor, casamento, filhos, trabalho, alegria e tristeza, crime e punição, liberdade, razão e paixão, autoconhecimento, beleza, morte, entre outros.

Cada capítulo apresenta uma reflexão poética e filosófica sobre um tema específico, oferecendo percepções e perspectivas sobre a natureza da existência humana, as relações interpessoais e a busca por significado e espiritualidade. A linguagem é rica e simbólica, convidando o leitor a uma profunda contemplação sobre as questões fundamentais da vida.

O Profeta transcende culturas e épocas, sendo apreciada por sua capacidade de inspirar e tocar a alma humana. Convida à reflexão e ao autoconhecimento, oferecendo um guia poético para navegar pela complexidade da vida. (Pesquisa com auxílio da i.a. Gemini)



sexta-feira, 28 de março de 2025

Quando atravessares a ponte…

Meu mundo não tem porta

E a porteira não tem cadeado.

A chegada é apenas por um caminho.

Verás uma ponte sobre um riacho de águas rasas.

Não tenhas medo, sequer estanques os teus passos.

Basta entregar as rédeas do andar ao teu coração.

Restará apenas cerrar os olhos,

Sentir e te deixar levar pela brisa do fim da tarde.

 

Ao atravessar o que parecerá um pequeno espaço,

Haverá um altar para nele depositar uma flor.

Ali deixarás teus medos, angústias, pesadelos.

No entanto, não te desvencilha dos sonhos, das esperanças,

Especialmente, dos afetos conquistados.

Recolhe a bandana que uma ninfa te entregar.

Podes colocá-la sobre a testa.

Está escrito: Aqui encontras a paz!

 

Quando atravessares a ponte,

Segue qualquer um dos caminhos.

Todos te levam ao meu encontro.

Será um momento de sorrisos e olhares,

De carinhos travessos e abraços apertados.

As palavras e as mágoas ficaram na outra margem.

No silêncio em que apenas a brisa murmura encantamentos.

Finalmente poderemos deixar que o pôr do sol siga seu rito

E que as estrelas nos encontrem embevecidos pelo entardecer.


terça-feira, 25 de março de 2025

O último bicheiro da vila Silveira

O seu Laudelino Almeida partiu. Conhecido na vila Silveira, em Pelotas, por ser o esposo da Ana, pai do Marcos, Kátia, Carla e Fabiano. Bom vizinho, após sair do quartel trabalhou no Jockey Clube (creio até que foi jockey). Também atuou como frentista em posto de gasolina. Depois de aposentado, passou a ter uma outra atividade: era a última pessoa que conheço que ainda fazia jogo do bicho.

Para quem não sabe, jogo do bicho é uma loteria ainda ilegal, popular nas vilas e periferias, onde um apontador passa e recolhe os palpites de cada interessado, em centenas e milhares (se bem me lembro). Mas também por uma numeração que contempla (ou contemplava) a dezena, relacionada a diversos animais. Cada um dos 25 bichos tem quatro números correspondentes, e as opções de apostas e premiações variam conforme as combinações vencedoras. 

É um trabalho de "formiguinha" feito, normalmente, pela manhã. Minha primeira lembrança desta aposta é pelo início dos anos 60, quando meu pai nos trouxe do interior de Canguçu e comprou um ponto onde passou a existir o "Bar e Armazém Raulin" (que era seu sobrenome). O bicheiro, para fazer média, perguntou para mim, com cerca de 5 anos, em que bicho eu apostaria. Disse que no cachorro. E fizeram a "fezinha". Final da tarde, chegou todo contente e queria me dar o dinheiro. Recusei, eu queria era o cachorro que eu tinha ganho!

Embora proibido e criminalizado durante largo tempo, o jogo nunca deixou de existir. Até porque as autoridades faziam vistas grossas para os pontos de jogo ou seus ambulantes. Sua grande popularidade, fundamentada na imagem de confiança dos seus resultados, particularmente nos jargões "vale o escrito" e "ganhou, leva", e sua ampla difusão tornaram a repressão total impraticável, resultando em uma coexistência ambígua com os meios legais e institucionais. Tendo se corrompido em territórios periféricos das grandes cidades (como o Rio de Janeiro), onde sua estrutura foi associada ao crime organizado.

Na época de meu pai, outro vizinho também fazia jogo do bicho, o seu Bernardo, que tinha sido pedreiro, segurança... Eram velhos moradores da vila que entravam nas casas para que os fiéis clientes alimentassem a esperança de realizar um sonho. Com poucos recursos ou remediados, qualquer um tinha o direito de fazer a sua aposta. Uma dona de casa ou quem ia ou voltava do emprego compartilhava seu sonho da noite e apostava no bicho que o inspirava ou no número que imaginava ter visto...

Não são apenas pessoas que se despedem de nós. São histórias que, na maior parte das vezes, sequer foram contadas. Perde-se não apenas um vizinho, um amigo ou um parente, mas um estilo de vida em que o sentido das próprias vivências se dava pelas pessoas com as quais se convivia. Descobre-se que éramos felizes e não sabíamos. Pelo simples motivo de que a sua existência guardava um pouco do sentimento de pertencer a um tempo que desafiava a própria ausência… 


domingo, 23 de março de 2025

Simplesmente assim: Tatuagem

Não tenhas pressa para amar.

Amar é tatuar sensibilidades

Por um corpo desnudado por procuras e desejos.

Fremita no sonho do desenho perfeito. 

As linhas que recém transmutaram a pele

Rubram no anseio de que se falquejem histórias,

Cicatrizes que não desbotam com o tempo.

Carregam expectativas, a certeza de que

São eternas enquanto viverem nas memórias.


Expostas ou escondidas, anseiam por significados,

A parte do mistério em que cada dobra do corpo

Sussurra por carícias e desejos...

A imaginação precede a fantasia.

O olhar divaga e alcança o horizonte do sonho. 

Perde-se nas luzes que demarcam rumos:

Basta um pequeno ponto, depois uma linha

E um traçado toma forma

Em busca da imagem que idealiza a perfeição...