O Fio da Meada:
As últimas eleições presidenciais voltaram a caminhar sobre o fio envenenado da polarização extrema. Em vez de um debate programático de futuro, o país assistiu a um confronto desgastante que culminou na amarga lógica do “menos pior”. Nem o Partido dos Trabalhadores nem o Liberal representam soluções plenas; como educador, sinto o peso de ver que nossas salas de aula ainda não formam lideranças capazes de romper com o populismo (à direita e à esquerda) que aprisiona a nossa política.
Mesmo sob esse ambiente adverso, a mobilização popular revelou momentos de profunda comoção democrática. Jovens engajados e idosos que sequer haviam comparecido no primeiro turno deixaram o conforto de seus lares para fazer a diferença na reta final. Essas cenas de massa, há muito não vistas pela esquerda, demonstraram que o povo ainda resiste. No entanto, a esperança depositada nas urnas cobra um preço alto: exige coerência entre os discursos de campanha e a dura realidade do cotidiano.
Os números frequentemente exaltados pela militância governista não encontram respaldo no custo de vida e nas dificuldades reais do dia a dia. Para além de comemorar a adaptação aos novos tempos e às tecnologias, o presidente precisa verdadeiramente ouvir a voz das ruas. A rua não é mero objeto de pesquisa para supostos estrategistas de gabinete, mas o chão concreto onde a população trabalha, sofre e espera por respostas efetivas que tardam a chegar.
**********
"Fazer esta limpeza significa cortar na própria carne e abrir mão dos políticos de estimação."
**********
Governança com legitimidade exigirá romper as amarras que tornam o Planalto refém do centrão e dos interesses fisiológicos da direita. Essa emancipação passa também por ouvir menos os bajuladores partidários e os grandes conglomerados de mídia, historicamente atrelados aos interesses do capital. O verdadeiro compromisso histórico dessa gestão reside em governar para a base social que garantiu sua vitória, e não para as elites econômicas que sempre ditaram os rumos do poder.
Contestar a legitimidade de um pleito soberano atenta contra o próprio país e não contra uma sigla específica. Ao mesmo tempo em que a democracia deve ser blindada, precisamos de instrumentos mais rigorosos contra o estelionato eleitoral e a mentira sistemática, a exemplo de legislações internacionais já vigentes em muitos países. Fazer esta limpeza significa cortar na própria carne e abrir mão dos políticos de estimação. A vida pública exige coragem institucional para cassar mandatos nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, sem distinção de toga, faixa ou paletó: na República de verdade, ninguém está acima do chão que o povo pisa.
(Revisão e imagem: Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/P1m4xXR2zn8)


