sexta-feira, 20 de março de 2026

Não venham ao meu enterro

 

O Fio da Meada: 

Tudo começa com uma pessoa cuidando da gente quando a vida se inicia.
Por muito tempo, navegamos entre o ato de cuidar e o de ser cuidado, num ciclo contínuo de dependências e afetos. Até que um dia, em definitivo, alguém decide por nós a derradeira roupa, o último lugar de moradia e o modo exato como seremos lembrados. É quando a nossa autonomia se entrega ao arbítrio de quem fica.

Recentemente, o contato com a doença e a perda me fez refletir sobre esses rituais. Já enterrei muitos familiares e amigos e percebi ser comum pessoas que não conviveram em vida acreditarem que o velório é o momento do "reencontro". Pode até ser um consolo para os vivos, mas não para quem partiu. O silêncio da morte não tem o poder de restaurar os laços que o tempo e o desinteresse trataram de esgarçar.

A busca tardia por quem nos afastamos revela, muitas vezes, o medo de admitir que fizemos opções diferentes. O tempo é um filtro natural das nossas convivências. Procurar alguém apenas quando o tratamento é difícil ou quando a vida se esvai soa mais como um reconhecimento da própria omissão do que como um gesto de carinho. É uma tentativa vã de compensar ausências que foram, no fundo, escolhas deliberadas de cada um.

Os mais próximos sabem que nunca fui das pessoas mais sociáveis e sempre procurei ser consciente dos meus limites. Embora alguns achem irônico que um professor de comunicação prefira o recolhimento, essa é a minha essência: um comunicador tímido, com a "Síndrome do Ogro". Habito o meu pântano de silêncios e ideias, onde a solitude não é um fardo, mas a proteção contra o ruído excessivo em que se transformou o convívio social.

Por isso, peço que não venham ao meu enterro. Nos meus pedidos finais, deixarei claro que não desejo velório ou cerimônias públicas. De tanto viver como um "Shrek" por opção, sou capaz de me assustar se, no último ato, reunirem-se mais de seis pessoas ao meu redor. Que a minha memória habite textos, áudios e vídeos que deixo. A lembrança individual, pois o espetáculo fúnebre nunca combinou com o meu jeito de ser, de ver e de estar no mundo.

(Revisão e imagem: IA Gemini. Áudio e vídeo em https://youtu.be/ntJHAyeZw2U)

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